O Google que conhecemos já não é o mesmo

O que significa quando um dos fundadores do Google, Sergey Brin, sobe no palco vestindo os óculos digitais – um dos símbolos do futuro que nos espera –, e transforma em espetáculo a abertura do evento anual de desenvolvedores da empresa? E não foram só os óculos. Na mesma apresentação, o Google fez diversos anúncios importantes (mais informações acima) e lançou dois produtos de hardware: o primeiro tablet com a sua marca, o Nexus 7, produzido pela Asus, e o primeiro eletrônico criado e produzido pelo próprio Google, o Nexus Q.

Nem parece mais a empresa de internet do slogan “don’t be evil” (“não seja mau”) que conhecíamos. Aquele Google, que ficou marcado por se preocupar em facilitar o acesso à informação e que criou tecnologias de mapeamento de dados – imagens, mapas, voz ou texto –, até existe ainda em algum lugar dentro de suas equipes de engenharia. Mas ele está cada vez mais distante do Google atual à medida que Brin e Larry Page – o outro fundador e CEO – partem para empreitadas fora da internet, seu domínio original, para se expandir a outras áreas onde tem menos experiência, como a produção de eletrônicos.

E apesar de ser uma empresa em constante transição, sua liderança e pioneirismo em diversos produtos online (buscas, e-mail, mensagem instantânea, navegador, mapas, edição de documentos, anúncios e tantos outros) parece ter ficado em segundo plano. O foco agora é criar o seu próprio futuro, cercado não só de serviços online, mas de produtos da marca que usam o conteúdo organizado e produzido pela empresa.

Por isso os óculos, o tablet, o novo Android, o Google Play e o Nexus Q – e a recente compra da Motorola. O futuro do Google vai além da rede, integrando-a aos eletrônicos que antes não eram conectados. Como escreveu Jon Phillips em reportagem que conta como foi o desenvolvimento do Nexus Q publicada no site da revista Wired, “a mensagem é clara: o Google agora é uma empresa de hardware”. À revista, Chris Jones, o designer que liderou o desenvolvimento do Nexus Q, em formato de esfera – semelhante a uma bola preta de cristal –, disse que acredita que estamos entrando em uma terceira onda dos eletrônicos, em que os produtos voltados para casa são conectados e puxam o conteúdo de tablets, computadores e smartphones ou da internet. Um cenário em que a mídia física não tem mais vez.

Outros produtos, principalmente da Apple, já vinham ditando esta nova onda e a afirmação de Jones soa como uma declaração de que o Google vê uma nova oportunidade ao entrar nela. E, se os eletrônicos agora se conectam à rede, e é na web que o Google tem mais força, ele também não pode ignorar a mudança e deixar de servir estes aparelhos com conteúdo e serviços. Talvez seja um bom momento para pensar outra vez em não ser mau.

O Estado de São Paulo, 30 de junho de 2012 – Por Filipe Serrano

* Análise publicada no Link em 2/7/2012.

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