Nas redes, é fácil espalhar falsidades. E desmenti-las também

Entre boatos e a verdade

Todo mundo mente. Crianças mentem, dizendo que escovaram os dentes, quando não escovaram. Políticos faltam com a verdade no calor de campanhas eleitorais. Sabe-se de repórteres que foram pegos mentindo, e também de autores de livros best-sellers, empresas, maridos e esposas, e, claro, governantes. E também de muitas pessoas no Twitter.

Tem-se a impressão de que nas redes sociais a mentira se tornou tão comum quanto a verdade. Notícias inventadas e fotos falsas se espalharam pelo Twitter quando o furacão Sandy atingiu os EUA, e muita propaganda enganosa circulou pela rede durante a campanha presidencial.

Mas será que isso é motivo para preocupação? Não creio. O Twitter tem, à sua maneira, seu mecanismo de autocorreção.

David Livingstone Smith, professor de filosofia da Universidade de New England e autor do livro Why We Lie (Por que Mentimos, ed. Elsevier), diz que recursos online como o Twitter e o Facebook contribuem para que a verdade seja estabelecida mais rapidamente do que nunca.

“Antes, levava muito tempo para que confirmações e desmentidos fossem checados”, explica. Agora, assim como a informação se dissemina com velocidade, erros e inexatidões são corrigidos mais agilmente. Também é mais simples fazer que as pessoas se responsabilizem por seus atos, já que é possível ligar o registro digital à pessoa que divulgou informação falsa conforme ela se espalha.

A mudança se deu com as mentiras escancaradas. “Na mídia eletrônica, mentir deixou de ser uma falta tão grave. Parece que atualmente temos uma relação menos austera com a verdade”, diz Smith. “Já não há uma distinção nítida entre realidade e fantasia, porque a mídia social embaralhou de tal maneira a separação entre notícia e entretenimento que essa clara e importante diferença se perdeu.”

Por conta disso, acrescenta Smith, aqueles que procuram a verdade online — frequentemente jornalistas — fazem o que sempre fizeram offline: usam seu “senso básico de responsabilidade moral” para se certificar de que estão dizendo a verdade às pessoas.

Isso aconteceu durante a tempestade Sandy, quando o site BuzzFeed denunciou um usuário do Twitter que estava deliberadamente espalhando mentiras irresponsáveis sobre incêndios em hospitais e inundações. (O sujeito se desculpou e desde então não deu mais notícias.) No site da revista Atlantic, o editor Alexis C. Madrigal criou um blog que examinava imagens da tempestade, determinando quais eram verdadeiras e quais haviam sido extraídas de filmes de catástrofe, como O Dia Depois de Amanhã. Uma página do Tumblr chamada “O Twitter está errado?” coletava e verificava imagens e mensagens da rede social.

Mas a pergunta que muitas pessoas continuam fazendo é: não seria responsabilidade do Twitter garantir que as coisas que circulam pela rede não sejam falsas? A resposta curta e simples é: não.

Mesmo que a empresa pudesse monitorar todos os posts — quase um bilhão a cada dois dias — por acaso é obrigação do Twitter decifrar o que é verdadeiro e o que não é? Ninguém espera que as livrarias e bibliotecas verifiquem cada palavra impressa nos livros expostos em suas seções de não-ficção.

O Twitter poderia oferecer ferramentas melhores para que as pessoas identificassem as invencionices. Alexis Madrigal, por exemplo, usou o mecanismo de busca de imagens do Google para descobrir a origem das fotos, recorrendo a algoritmos para facilitar o processo de verificação. “A única maneira de fazer frente a essas inverdades é reagir com os mesmos instrumentos de que elas fazem uso”, diz.

O Twitter também poderia dar uma mão às pessoas que compartilham acidentalmente informações falsas, oferecendo-lhes a possibilidade de editar as mensagens ou marcá-las como incorretas. Atualmente, avisar aos demais usuários que uma mensagem anterior continha um erro é como fazer propaganda de restaurante e então voltar algumas horas depois, quando as mesas já estão todas ocupadas por outros fregueses, para dizer que não era isso que devia ser dito. Uma estratégia, no mínimo, ineficaz.

Como diz Smith, há diversas ocasiões em que é perfeitamente admissível mentir. É o caso, por exemplo, da situação em que a pessoa diz para o chefe sem graça que ele é engraçado ou quando elogia a roupa horrível do marido ou da esposa. “Mas também há muitos exageros e enganações perigosas”, acrescenta. “E isso é algo que todos nós temos a obrigação de tentar prevenir.”

Nick Bilton (The New York Times) /Tradução de Alexandre Hubner

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