As máquinas preveem o que você quer

Com base em sensores e no processamento de grandes bancos de dados, sistemas conseguem antecipar as necessidades dos usuários

A inteligência artificial está acontecendo, sem que a maioria das pessoas perceba. No lugar das máquinas que imitam o funcionamento do cérebro humano, o efeito é atingido pelo processamento de grandes volumes de dados.Em julho, Marc Andreessen, um dos investidores mais respeitados do Vale do Silício, afirmou em um evento em Aspen, nos Estados Unidos, que as empresas de inteligência artificial passaram a se autodenominar empresas de “aprendizagem de máquina” (machine learning), com o objetivo de trocar o rótulo por um menos desgastado.

Depois de décadas de promessa, decidiram mudar o nome para que os primeiros resultados não fossem recebidos com desconfiança. A aprendizagem de máquina é um ramo da inteligência artificial, em que os computadores são programados para ter a capacidade de aprender, extraindo regras e padrões de um conjunto grande de informações.

Estamos acostumados com aplicações simples desse método nos sites de comércio eletrônico, que sugerem novos itens ao comparar as compras que fizemos com as de outros consumidores que adquiriram os mesmos itens. Mas os novos sistemas cruzam informações de diversos bancos de dados, para sugerir muito mais que produtos.

Alguém pode dizer que essa inteligência que surge quando se aplica força bruta computacional não é inteligência de verdade. Que é uma trapaça, uma forma de se parecer inteligente. Mas o matemático inglês Alan Turing já havia proposto, em 1950, que, caso não fosse possível distinguir as respostas de uma máquina das de uma pessoa, a máquina poderia ser considerada inteligente.

O Google Now é um recurso presente no Android Jelly Bean, versão mais recente do sistema operacional para celulares. À primeira vista, pode parecer a resposta do Google à Siri, assistente de voz do iPhone. Mas, além de responder perguntas em linguagem natural, o Google Now traz outras funcionalidades. Tendo como base informações como a agenda do usuário, sua localização e seu histórico de buscas, tenta prever o que o dono do telefone precisa. Sugere, por exemplo, rotas alternativas, sem que seja necessário perguntar.

“Nos próximos meses, o assistente inteligente vai apresentar cada vez mais informações sem que o usuário tenha de solicitá-las”, afirmou Emmanuel Evita, gerente de relações públicas do Google Brasil. Esses sistemas com capacidade antecipatória são possíveis graças a conceitos que se tornaram expressões da moda no mercado de tecnologia. Um deles é computação em nuvem. Um smartphone, por mais sofisticado que seja, não é capaz de armazenar e processar todas as informações necessárias para que um assistente virtual como esse funcione. Ele depende de servidores que estão em centros de dados espalhados pelo mundo. Outro conceito é o de Big Data, um volume tão grande de informações que os sistemas convencionais de banco de dados não conseguem dar conta.

Internet das coisas. Mas esse cenário fica ainda mais interessante com a proliferação de dispositivos com sensores e conectividade. Internet das coisas é mais uma expressão da moda, e que ajuda a criar esse ambiente tecnológico presciente. “Imagine que você vai fazer uma viagem, está a caminho do aeroporto e o trânsito está parado”, disse Marcelo Ehalt, diretor de Engenharia da Cisco do Brasil, que fabrica equipamentos de telecomunicações. “A partir das informações do sistema de localização, seu carro pode identificar que você não vai chegar a tempo, entrar em contato com a empresa aérea e já remarcar o voo.”

Mais e mais problemas serão resolvidos dessa forma, pela comunicação máquina a máquina, sem intervenção humana. Ehalt citou ainda a instalação de etiquetas inteligentes em equipamentos num hospital, para que eles possam ser localizados mais facilmente. “Temos alguns projetos em andamento nessa área de monitoramento de ativos”, disse o executivo.

Há dois anos, a Microsoft criou um impacto no mercado de tecnologia com o lançamento do Kinect, sensor de movimentos de baixo custo para o videogame Xbox 360. O comando por gestos acabou sendo incorporado por outros fabricantes de eletrônicos, como as fabricantes de TVs Samsung e LG. O grande salto, no entanto, acontece com a adoção dessa tecnologia para aplicações fora do mercado de entretenimento digital.

“A leitura biométrica está cada vez mais sofisticada”, afirmou Paulo Iudicibus, diretor de Novas Tecnologias e Inovação da Microsoft Brasil. “A nova versão do Kinect para Windows tem uma biblioteca de gestos mais finos e reconhecimento de face.” Com isso, é possível criar aplicações mais proativas. Ele citou um parceiro da Microsoft que, usando o Kinect, desenvolveu um sistema que identifica situações de violência ou roubo em estabelecimentos comerciais, pelo movimento corporal das pessoas, e toma medidas a partir disso, como avisar a polícia e a empresa de segurança, sem a necessidade de intervenção humana.

Sensores. Recentemente, a IBM divulgou a nova versão de seu estudo “Next 5 In 5”, que faz cinco previsões tecnológicas para os próximos cinco anos. Neste ano, as previsões fazem referência aos cinco sentidos – toque, visão, audição, sabor e cheiro -, mas poderiam ser resumidas numa palavra: sensores.

Segundo a IBM, será possível, por exemplo, sentir a textura de um tecido na sua imagem na tela de um dispositivo. As máquinas também saberão interpretar não somente o som das palavras, mas, o balbucio dos bebês, para dizer se eles sentem fome ou dor.

“O que está sendo previsto hoje começou ontem”, afirmou Fabio Gandour, cientista chefe da IBM Brasil. “Essa história de mimetizar os sentidos começou em 2003.” Ele disse que, há nove anos, um grupo na IBM começou a pesquisar arquitetura para gerenciamento de informações não estruturadas (Uima, na sigla em inglês). No ano seguinte, foi publicado um trabalho no IBM Research Journal. “Não existe informação mais desestruturada e imprevisível que a dos sentidos.” Com a difusão dos sensores, a previsão se tornou possível.

Como o estudo da IBM está na sétima edição, já é possível fazer um balanço dos acertos em suas previsões. “De 40% a 60% acontecem”, apontou Gandour. “O acerto depende da utilidade real e da viabilidade comercial da tecnologia.”

Em 2006, a IBM previu que a internet seria tridimensional. A previsão estava errada, mas não por questões tecnológicas. A tecnologia 3D está presente nos televisores, mas é usada de forma restrita, em filmes. As pessoas não têm vontade de trabalhar o dia inteiro num ambiente virtual em 3D. “Do ponto de vista tecnológico, a maioria das previsões se confirma”, disse o cientista. Isso acontece porque as tecnologias já existem no momento da previsão. “A pesquisa em nossos laboratórios leva à projeção de novos produtos, e não o contrário.”

Ou, como disse certa vez o escritor americano William Gibson, “o futuro já está aqui, só não está bem distribuído”.

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