A história do médico italiano que morou em favela carioca e hoje faz sucesso como empreendedor

Marco Collovati chegou a morar na comunidade do Pavão-Pavãozinho antes de fazer sucesso com análises clínicas
Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão
Marco Collovati trocou a Itália pelo Rio de Janeiro

Quando trocou Florença, na Itália, pela cidade do Rio de Janeiro, o recém-formado médico Marco Collovati trazia na ponta da língua seus objetivos de vida: aprender a fazer cirurgia plástica com um súdito de Ivo Pitangui, ganhar dinheiro com a nova especialidade e, finalmente, curtir a vida usufruindo dos prazeres que a prosperidade econômica certamente oferece.

Hoje, 16 anos após sua chegada, ele comemora algumas conquistas com a mesma intensidade que se surpreende com as transformações de outras. De fato, Collovati treinou cirurgia plástica com um profissional da escola do famoso médico. E com dinheiro no bolso, comprou um bom apartamento próximo da praia do Flamengo.

Mas o europeu decidiu frear seu impulso capitalista, abdicou de um próspero consultório sem cobrar um centavo do sócio e investiu em uma empresa de diagnóstico, que atualmente se debruça sobre a missão de erradicar doenças tidas como negligenciadas pelo mundo, em especial a hanseníase, a leishmaniose e a chagas.

O que está por trás dessa mudança de rota, Collovati reflete, tem estreita relação com o início difícil, por vezes até sofrido, no País – ele ficou desempregado e não falava uma única palavra de português.

“Hoje eu me lembro com muita felicidade daquele tempo. Mas, o emprego que esperava encontrar aqui não deu certo, meu dinheiro não dava para muita coisa com o real valorizado em 1997 e, para não voltar para casa derrotado, tive de alugar um conjugado na favela do Pavão-Pavãozinho, localizada na zona sul do Rio de Janeiro, além de trabalhar de graça na Santa Casa de Misericórdia, onde fazia cirurgias das 7h às 22h”, relembra o empreendedor italiano.

Assim foi a vida de Collovati por um ano. Aí ele conheceu seu futuro sócio, o cirurgião plástico Rawlson de Thuin, a quem apresentou a medicina estética – famosa na Europa e desconhecida no Brasil. “Quando começamos a divulgar isso, vinham 35 pacientes por dia, todos os dias, inclusive sábados e domingos. Comecei a ganhar dinheiro mesmo”, conta o médico, que naquela época já havia mudado suas convicções.

“Aquela vida na favela me perturbou. Convivi com situações onde você vê de tudo: a felicidade com nada; a noção de comunidade. Acho que perdi aquele tesão de ganhar dinheiro porque eu vi que a felicidade poderia ter outras facetas”, analisa. Estava aberto o caminho para o lançamento da OrangeLife, empresa médica que desenvolve testes de diagnóstico rápido para doenças como hanseníase, dengue e leishmaniose.

O negócio inovador recebeu destaque na imprensa internacional, com direito a primeira página no The New York Times. “Eu percebi a necessidade que o Brasil tem de investir em tecnologia. E, além disso, a urgência em eliminar doenças que geram um forte prejuízo social e econômico. Essa, agora, é a minha missão”, conta. “Também quero provar que cientista brasileiro não é carne de segunda. Eu venho da Europa e sei que carne de primeira e de segunda tem em tudo quanto é lugar.”

Um acerto
O Sistema Único de Saúde (SUS) é o principal cliente de empresas como a OrangeLife. Marco Collovati sabe disso. Como também sabe da burocracia que envolve as licitações que definem as aquisições do órgão. Para minimizar o problema, ele tratou de lançar testes comerciais, como o de gravidez, que garantiram a lucratividade no início da operação.

Um erro
Em sua trajetória no Brasil, Marco Collovati não aponta um erro que o tenha feito recuar ou ‘pivotar’ sua ideia. Ele, entretanto, demonstra desconforto com o tempo em que se envolveu com a política, chegando inclusive a assumir um cargo de confiança no governo do Rio de Janeiro. “Os políticos falam. Mas eu descobri que sou um homem de ação”, conta.

Uma dica
Para o médico, o empresário deve incentivar a capacidade criativa do brasileiro, que segundo ele não deixa nada a dever para os profissionais de outros países. “Eu sempre falei para meus cientistas que eles eram os melhores do mundo. No início eles davam gargalhada. Depois de um ano, começaram a acreditar. E saímos até na capa do New York Times.”

RENATO JAKITAS, ESTADÃO PME

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