Entrevista com Ricardo Semler: “Trocaria uma aula de matemática por videogame”

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O paulistano Semler, nascido em 1959, defende uma escola que valoriza a liberdade de escolha

Nos anos 1980, o empresário Ricardo Semler ganhou notoriedade ao revolucionar a forma de gestão de sua empresa, a Semco. Criou um modelo em que os funcionários avaliam e escolhem os próprios chefes e não têm horário ou mesmo obrigação de aparecer no escritório. Os lucros explodiram, levando o sistema a ser copiado em várias partes do mundo. Agora, Semler quer fazer o mesmo na área da educação.

CRÍTICO IMPIEDOSO DO ENSINO ATUAL, ELE FUNDOU O INSTITUTO LUMIAR, QUE MANTÉM, EM SÃO PAULO, DUAS ESCOLAS PARTICULARES E UMA PÚBLICA RESPONSÁVEIS POR VIRAR DE CABEÇA PARA BAIXO O COTIDIANO LETIVO: não há a figura tradicional do professor, as turmas são agrupadas por faixas etárias ampliadas e os alunos escolhem em que ordem trabalham os tópicos do currículo. No Exterior, integra a coalização Synapses, que quer levar o método a outras partes do globo. A Synapses tem entre seus participantes a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o clube de países ricos responsável pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) – que, apesar de ser o mais reputado ranking do ensino, não é poupado de críticas por Semler.

Em um artigo recente para a Folha de S. Paulo, o senhor afirma que o conceito atual de escola é um sistema de tortura que caducou. Que tortura é essa?
O aluno é punido pela preguiça dos educadores e dos pais. Não faz sentido ter 12 a 14 matérias no Ensino Médio e questões absurdamente conteudistas nos simulados e no Enem. Isso reverte em um sistema de tortura de conhecimentos específicos e no terror do vestibular. Tanto assim, que é comum, na Lumiar, ouvirmos de pais da Educação Infantil e até do berçário perguntas a respeito do preparo para o vestibular. Hoje, o conhecimento de todos os professores de uma boa escola cabe num pen drive. Por que estamos usando o cérebro das crianças para armazenar conhecimento, quando um minuto de pesquisa no Google resolve? No ano 1400, ou mesmo em 1900, era necessário. Hoje, é imbecilidade institucional, que apenas desgasta e elimina a magia do conhecimento, que vai se esvaindo na medida em que se pedem equações inócuas ou descrições de átomo, formatadas por escritores de terceiro time, que ganham para criar nomenclaturas rasas.

O senhor critica a formação dos pais e afirma que eles não têm coragem de confrontar a escola. Qual é o peso da família nas falhas do nosso ensino?
Desafio um pai a tirar nota equivalente a 3 ou 4 no Enem. Num dos vestibulares, caiu um artigo meu e deram quatro opções referentes à interpretação do autor. Errei a resposta. Aqui e no mundo, 62% dos pais escolhem a escola por geografia. Escola boa é a perto de casa. Depois vêm a infra, o capital social (quem estuda lá, quem meu filho vai conhecer) e só por último método de ensino ou pedagogia. Nas reuniões de pais, alguém lembra de ter discutido a essência pedagógica? Tudo gira em torno de fila dos carros na saída, horários, preço dos materiais ou mensalidade e inclusão de alimentos orgânicos na merenda. Os pais terceirizam a educação, deixando o filho na porta da escola, e pronto. A escola impede a interferência dos pais, e assim todo mundo dissimula: o aluno finge que entendeu, a escola escolhe 2% da matéria para perguntar na prova, depois finge para os pais que os meninos aprenderam, e estes fingem que tudo isso aconteceu, quando sabem que 80% da experiência é apenas de socialização.

O senhor aponta a decoreba como um sério mal da escola brasileira, mas há quem acredite que o abandono da decoreba, nas últimas décadas, provocou o declínio no ensino. Por que o senhor entende que há aí um problema?
Há países inteiros que defendem a decoreba. Por várias razões, para mim, indefensáveis. Uma justificativa é a padronização do ensino. O Japão sempre se orgulhou de poder dizer, pelo dia da semana e pela hora, o que cada aluno, em qualquer escola do país, estava estudando. Esses alunos, que cometiam suicídio em número recorde quando não entravam na melhor universidade, levaram o Japão, que foi líder mundial quando padronização era a regra industrial, à condição de país perdido e mal sucedido economicamente assim que estreou o novo mundo da criatividade e flexibilidade. O Japão havia aprendido a mentalidade da linha de montagem, da cópia, corroída quando a Coreia do Sul e a China a recopiaram. Hoje, esses países dependem da criatividade em empresas de garagem no Vale do Silício, onde garotos indisciplinados ditam o que os asiáticos precisam copiar e baratear. E quase todos os inovadores da Califórnia foram a escolas sem decoreba. As empresas hoje querem gente com autopropulsão, curiosidade, ausência de limites formais e capacidade de achar respostas – e não pessoas organizadas e que sabem as respostas de cabeça.

Como o senhor responderia a quem defende o retorno da decoreba e usa como argumento estudos segundo os quais decorar melhora o desempenho não apenas na matéria estudada, mas nas disciplinas em geral?
O argumento antiquado do valor da decoreba reside no raciocínio de que o aluno está “aprendendo a aprender”, o que é uma sandice. Pense na dificuldade de aprender uma língua. Agora, pense na dificuldade maior que é aprender a falar do zero. Pois nossos filhos aprendem isso com um ano de idade, sozinhos. Todos vêm manufaturados para aprender a aprender. A ideia dos defensores da decoreba é que qualquer matéria ou conteúdo é útil – que é o ato de memorizar que desenvolve o raciocínio. Com base na ciência cognitiva não vejo estudo algum que indique correlação entre conteúdo insosso e habilidade cerebral. Há, por outro lado, estudos claros provando que o videogame desenvolve habilidades sensoriais, espaciais e de coordenação motora. Os defensores da decoreba são a favor de substituir uma aula por dia de matemática por videogame? Eu sou. Outros educadores falam da diminuição do tempo de atenção. Em 1909, a Universidade de Chicago descobriu que era de 52 minutos. Em 2004, o estudo foi refeito e indicou uma atenção de oito minutos. A meninada, logicamente, tem oito minutos de paciência para o conteúdo vazio e inerte que está nas apostilas. Por outro lado, coloque seu filho para passar de fase num game de batalha cibernética – volte depois de quatro horas e lá estará ele, ainda tentando passar de fase. É preguiça e covardia defender que devemos empurrar goela abaixo matérias áridas, ao invés de usar a nova tecnologia para fazer do aprendizado algo entusiasmante.

O senhor propõe que o Brasil se inspire mais no modelo educativo finlandês do que no sul-coreano, ainda que este último, de características muito rígidas, venha obtendo resultados melhores em avaliações internacionais, enquanto o flexível modelo finlandês vem decaindo nos mesmos rankings. Por que essa opção?
Não é coincidência que os países que estão se dando cada vez melhor no Pisa são os ditatoriais. Hoje, China, Cingapura e Coreia do Sul estão no topo. É lógico. O que se está testando é conteudista, e só se dá bem nessas provas quem foi exposto a jornadas árduas de memorização e exercícios enfadonhos, ficou sem fim de semana e viu passar ao largo a infância lúdica. Alguém já entrou numa sala de aula de uma ditadura asiática e viu crianças alegres, brincalhonas? Os finlandeses estavam indo muito bem no Pisa. Com o passar dos anos, foram humanizando o ensino e começaram a abolir as matérias, como matemática ou língua, substituindo-as por temas e projetos, como é o caso na Lumiar há 11 anos. Ao abrir mão da tortura escolar, caíram no Pisa. Não é diferente nas escolas nacionais que mais pontuam no Enem. São as que mais simulam, reduzem o conteúdo ao que vai “cair” e treinam a decoreba. Se a escola se der o luxo de formar uma pessoa completa, os pais tiram.

Mas o Pisa não é o melhor indicador que temos para avaliar a qualidade do ensino?
Sequer o Pisa tem confiança no monstrengo que criou. Tenho conversado com os diretores de lá, e eles estão preocupados com como podem estar condenando o ensino a mais anos de atraso devido ao formato, que começou bem-intencionado. O Vale dos Vinhedos entende bem disso. Vinhos eram avaliados por quesitos subjetivos, como olfato, ataque ácido, sensação de tanino no palato médio. Foi preciso um americano que só tomava Coca-Cola no McDonald’s de Paris, Robert Parker Jr., para revolucionar esse mundo. Ele fez o Pisa do vinho: começou a dar notas de 0 a 100 para cada rótulo e safra. Pronto, qualquer neófito poderia comprar vinho sem risco. Choveram consultores, inclusive no Rio Grande do Sul, para “parkerizar” artificialmente o vinho. Aonde isso leva? No ano passado, recebi uma oferta de Hong Kong, através da casa de leilão que armazena parte da minha adega, de 400 dólares por garrafa. Detalhe: vazias. Ou seja, queriam comprar o troféu daquele rótulo e ano, e colocar em lugar visível. O líquido era irrelevante. É assim com muitos dos diplomas hoje. Os pais querem ter a consciência tranquila de que fizeram o possível para a filha se posicionar para a vida. Daí em diante, mãos lavadas. Que cômodo. Pergunte a qualquer empresa de recrutamento e dirão: nota alta e diploma de grife estão em baixa.

Como surgiu o interesse do senhor pela educação e a criação do Instituto Lumiar?
A Lumiar surgiu de uma decepção com jovens que buscavam trabalho na Semco. Vinham treinados para entrevistas, vestindo a roupa certa, perguntando onde estariam em cinco anos – prontos e submissos para serem doutrinados. Ao pensar em como ajudar com esta questão, veio aos poucos a resposta: começando no ponto onde estragamos tudo, no jardim de infância. As crianças pequenas da Lumiar participam de assembleias semanais, onde ajudam a criar as regras de convivência, e têm forte experiência de cidadania. Também olham, mesmo com quatro anos de idade, notícias do dia e começam a entender o mundo e formas de procurar informação. Sabem usar iPad e aprendem a escrever primeiro no mundo digital. Os saudosos prefeririam aulas de caligrafia, da mesma forma que condenaram calculadoras em aulas de matemática nos anos 1970 e 80. Não passam de herdeiros dos luditas, que quebravam máquinas com martelos durante a revolução industrial.

Qual é o conceito das escolas Lumiar?
O conceito teve duas fases. Na primeira, comecei falando com Paulo Freire e vários ministros da educação, filósofos e pedagogos. Propunha a eles que desenhássemos uma escola moderna, livre do ranço da escola tradicional, imersa no raciocínio da linha de montagem, da produção de milhões de jovens adultos prontos para servirem à causa das organizações e indústrias. Dessa fase resultou uma escola que privilegiou a liberdade de escolha, a autopropulsão dos alunos e a crença no interesse natural pelo conhecimento. Esse ciclo terminou depois de três anos, quando minha esposa, Fernanda, assumiu a escola de São Paulo e abriu uma outra, rural, e ainda assinou uma PPP para assumir uma escola pública no interior de São Paulo. O formato é baseado na abolição da figura clássica do professor. Há um tutor, que é responsável durante anos a fio por um grupo de 15 ou 20 alunos. Esse tutor olha os aspectos pedagógicos, mas também emocionais, afetivos e culturais. O ensino, propriamente dito, é delegado também a mestres, que são pessoas de fora da escola e que têm paixão e expertise específicas em alguma área. Os temas são abordados conforme os interesses dos alunos. Durante a Copa, houve aulas de Copa do Mundo por um semestre inteiro. As aulas envolviam geometria, ao pedir aos alunos que desenhassem diferentes formatos de campo. Incluíam física, no estudo de quantas lâmpadas e watts eram necessários para iluminar um estádio. Ou, como decorrência, questionava-se por que houve décadas de lapso entre a invenção da eletricidade e o primeiro jogo noturno de futebol, um assunto de antropologia e psicologia. Ao estudar tabelas de resultados, aprendeu-se matemática, ao olhar blogs de comentaristas, vocabulário e ortografia. Das bandeiras dos países vinham aprendizados de geografia e história, e assim por diante.

Como funciona uma escola onde as crianças escolhem a ordem do que vão aprender?
Ao indicarem o que lhes interessa, os alunos abrem a caça a novos mestres apaixonados e, como no caso da Copa do Mundo, acha-se rapidamente uma maneira de dar baixa em inúmeros itens dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). É uma escola com registros dentro de um sistema digital chamado Mosaico, que traça a trajetória de cada aluno em relação aos PCNs, de forma que toda a matéria, competência ou habilidade exigida pelo MEC é atendida. Não é uma escola montessoriana ou construtivista. Atende integralmente às exigências do MEC, ao invés de usar os projetos para formar uma criança, mas sem a ter exposto a todo o arcabouço do conhecimento acumulado da humanidade que o MEC elegeu como mínimo. Claro que temos muito respeito pelos montessorianos e construtivistas, mas queríamos criar algo mais moderno, digital e com monitoramento algorítmico.

Que resultados foram mensurados nas escolas Lumiar? Houve interesse de outras instituições e redes em adotar o mesmo sistema?
Apesar de não ser o foco, essas escolas se dão muito bem nas avaliações. Ou seja, mesmo sendo contra a dieta forçada de conteúdo, esta meninada se sai, nos exames clássicos, sem nunca terem visto o material ou terem feito provas, igual ou melhor que os alunos de outras escolas. Não temos um só caso, em 11 anos no Instituto Lumiar, de alunos que repetiram de ano ao saírem. O interesse de outras escolas, estados e países demorou alguns anos. Hoje, não temos como atender à demanda. Temos 31 pedidos de escolas Lumiar no Exterior, entre Estados Unidos, Inglaterra, Israel, Egito e até Nigéria. No Brasil, são dezenas de municípios, e começaremos a atendê-los no ano que vem. Temos o sonho de oferecer este método gratuitamente para municípios que não possam pagar. Esse ó o objetivo maior.

Em outro artigo de repercussão, o senhor afirmou que nunca se roubou tão pouco no Brasil, uma noção que vai contra aquilo em que boa parte da sociedade acredita hoje. Por que o senhor defende essa ideia?
O Brasil passa por uma transição salutar. Ao ver ricos assustados e executivos de algemas, estamos inaugurando uma fase longa de recuperação de autoestima. A disputa político-partidária é de pouca relevância, apesar de tórrida e presente. Ser tucano ou petista é irrelevante, o que importa é ter brasileiros com um B maiúsculo, que lutem no dia a dia para que essas conquistas de moralidade se consolidem. Dói ver a Petrobras assaltada, mas não é de hoje, vem de décadas. Mal se abriu a caixa de Pandora da corrupção pública, que dirá da privada, que também é enorme. Estamos no momento de responder se somos ou estamos corruptos, como cidadãos. O Brasil andará bem, estou otimista. Claro, primeiro vêm agruras, mas estou investindo em novas empresas. Em breve, em alguns anos, se darão bem os que acreditaram no médio prazo.

O senhor defendeu um aumento do imposto sobre herança para os donos de grandes fortunas e disse que aceitaria pagar até 50%. Por quê?
A questão global da concentração de renda é criminosa. Se aceitassem meu convite para jantar, eu poderia potencialmente reunir menos de 500 pessoas, que teriam um patrimônio maior do que a soma de 2 bilhões de cidadãos do mundo. Isso se justifica? Claro que não, é uma anomalia da qual a elite financeira se aproveita. Sou a favor de movimentos simbólicos, como 50% de imposto para heranças acima de alguns milhões de reais, por exemplo.

O senhor abriu uma conferência TED, recentemente, com a afirmação de que segundas e quintas são seus dias terminais, os dias em que o senhor aprende a morrer. Pode explicar que ideia é essa?
A palestra no TED foi dedicada à questão da sabedoria, que tanto buscamos. Muitas vezes, é mais sábio se omitir do que agir, ou vender menos produtos, para ganhar estabilidade de longo prazo da empresa. Ganância é qualidade nos dias de hoje, mas é pouco sábia. Como sempre fui sugado pelas múltiplas atividades, e considerando que a maioria da minha família teve um câncer voraz, o melanoma, parei para pensar o que faria se meu oncologista me desse a notícia fatídica de que eu teria seis meses de vida, o que faria com esse tempo, sabendo que uma corrida para compensar afetivamente esposa e filhos, ver lugares que não tinha visto e ler no jardim seria psicologicamente incompatível – a dor e a nostalgia matariam os momentos. Assim, decidi tirar dois dias por semana para meus dias terminais, título que a Fernanda odeia. Nesses dias, eu faço o que faria se tivesse recebido a notícia do médico. É a procura etérea da sabedoria, que se esconde tão bem.

O senhor também relata que fez uma fogueira e queimou tudo o que tinha feito na vida. Essa é uma ideia que o senhor sugeriria a outras pessoas?
Apegar-se ao passado e a conquistas é inócuo. Além disso, é maléfico, pois serve como âncora pesada. Zarpar para o futuro, sempre, requer estar livre de amarras. Ao queimar todos os livros em quase 40 línguas, milhares de artigos e reportagens, diplomas e honrarias, deixei a casa completamente livre de peso. Agora, só serei o que conseguir fazer daqui para a frente. Tem o mérito didático, também, de não fazer sombra sobre os cinco pequenos, que ficam mais livres para não seguirem, em nada, os passos do pai, por pressão inconsciente.

ITAMAR MELO – itamar.melo@zerohora.com.br

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